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Última atualização: 16 de janeiro de 2026

Zero absoluto e nada: dois limites que o universo se recusa a atingir

Representação artística de um termômetro mergulhando em direção ao zero absoluto em um vácuo quântico não vazio

A ilusão dos extremos

A mente humana é fascinada por extremos e limites. Conceituamos o frio absoluto (o zero termodinâmico a 0 Kelvin) e o nada perfeito (a ausência total de matéria, energia, espaço e tempo) como se existissem.

Esses conceitos parecem lógicos, até necessários, para delimitar nossa realidade. No entanto, quando a física fundamental os aborda, revela uma verdade perturbadora: esses dois estados não parecem existir em nosso universo. Eles não são destinos alcançáveis, mas sim horizontes que recuam à medida que nos aproximamos. Essa impossibilidade não é um acidente; ela decorre das leis mais íntimas da natureza.

O zero absoluto: um limite inatingível

A busca pelo frio último tem uma longa história. No século XVIII, cientistas como Guillaume Amontons (1663-1705) já falavam de um "frio extremo". O conceito de zero absoluto foi firmemente estabelecido no século XIX. Ele representa o estado em que a energia térmica de um sistema é mínima, onde os átomos cessariam todo movimento.

No entanto, a mecânica quântica, nascida no início do século XX, impôs uma proibição fundamental. O princípio da incerteza de Heisenberg (1927) proíbe uma partícula de ter uma posição e um momento perfeitamente definidos (ambos nulos). Mesmo em seu nível de energia mais baixo, um sistema possui uma energia do ponto zero.

Assim, atingir 0 K equivaleria a congelar completamente a natureza quântica da matéria, o que é impossível. Os físicos podem se aproximar extraordinariamente (a alguns bilionésimos de Kelvin), mas a "parede" do princípio da incerteza permanece intransponível. O zero absoluto é um limite assintótico.

N.B.: O que é temperatura?
Do ponto de vista microscópico, a temperatura não é uma substância, mas uma medida da agitação térmica média das partículas que constituem a matéria (átomos, moléculas). Quanto maior essa agitação, maior a temperatura. O zero absoluto corresponderia teoricamente à parada completa dessa agitação. A mecânica quântica proíbe esse estado de imobilidade perfeita, garantindo uma energia residual mínima mesmo no nível mais baixo.

O nada: um conceito que se evapora

Paralelamente, a noção de nada parece igualmente inalcançável. Nossa intuição de "vazio" é um espaço totalmente vazio. No entanto, a teoria quântica de campos nos ensina que o que chamamos de vazio é, na verdade, uma entidade dinâmica e complexa: o vácuo quântico.

Nesse vácuo, pares de partícula-antipartícula virtuais aparecem e desaparecem constantemente, tomando emprestada sua energia do princípio da incerteza na forma \(\Delta E \Delta t \ge \frac{\hbar}{2}\). Isso não é um artefato teórico; efeitos como a força de Casimir (prevista em 1948, medida com precisão mais tarde) comprovam isso experimentalmente.

Vamos mais além. O espaço-tempo em si, quadro de toda existência, é um "algo" com propriedades (curvatura, expansão). Se, como sugerem alguns modelos cosmológicos, o "Big Bang" marca a emergência do espaço-tempo, então a pergunta "o que havia antes?" poderia ser um nonsense, pois talvez não houvesse um "antes" sem tempo para medi-lo. Nesse contexto, o "nada" nem sequer seria um vazio no espaço-tempo, mas a ausência total do espaço-tempo em si, uma noção tão radical que desafia nossa capacidade de conceituá-la.

Conceituar o nada é dar-lhe uma existência que não tem. Como destacava o físico Lawrence Krauss (n. 1954) em sua obra "Um universo do nada", o "nada" da física não é o "nada" filosófico.

Uma conexão profunda? A impossibilidade como princípio

A analogia entre a inatingibilidade do zero absoluto e a inexistência do nada não é uma mera coincidência poética. Ela aponta para um princípio subjacente: a natureza parece rejeitar estados de ausência total, de nulidade perfeita.

Essa impossibilidade é garantia da existência e da estabilidade do universo. Sem a energia do ponto zero, os átomos poderiam colapsar. Sem as flutuações do vácuo, talvez não houvesse sementes para as inhomogeneidades que levaram às galáxias. O fato de que o universo está preenchido com uma energia fundamental (energia do vácuo, ou constante cosmológica) é outra pista nesse sentido.

Os dois limites que são o zero absoluto e o nada não são, portanto, fronteiras do universo, mas limites de nossos conceitos clássicos. Eles nos remetem às peculiaridades fundacionais da realidade quântica e relativística.

Zero Absoluto e Nada: Dois limites inatingíveis
ConceitoDefinição intuitivaRealidade físicaCausa da impossibilidadeConsequência para o universo
Zero Absoluto (0 K)Temperatura em que toda agitação térmica cessa.Limite inatingível. Persiste a energia do ponto zero.Princípio da incerteza de Heisenberg (\(\Delta x \Delta p \ge \frac{\hbar}{2}\)).Estabilidade dos átomos, existência da matéria.
Nada / Vácuo PerfeitoAusência total de matéria, energia, espaço, tempo.Não existe. O "vácuo" é um vácuo quântico dinâmico.Flutuações quânticas do vácuo (\(\Delta E \Delta t \ge \frac{\hbar}{2}\)).Possibilidade de criação de partículas, início de estruturas cósmicas, energia do vácuo.

Fontes: Princípios da mecânica quântica (Heisenberg, Dirac). Cosmologia moderna (energia do vácuo, inflação). Efeito Casimir.

Somos os Filhos do Impossível?

A ciência nos diz como algo veio de quase nada. Mas o mistério do porquê de haver "algo" em vez de um nada absoluto permanece nas fronteiras da física e da filosofia.

Esta dupla impossibilidade nos leva a uma questão vertiginosa: não seriam esses dois limites inatingíveis—o zero absoluto e o nada—exatamente o que torna nossa existência possível? Se o zero absoluto fosse atingível, a matéria colapsaria, privada da energia do ponto zero que mantém a estrutura atômica. Se o nada perfeito existisse, não haveria flutuações quânticas para iniciar a gênese das partículas, nem um quadro espaço-temporal para que qualquer história se desenrolasse. As leis fundamentais da física parecem favorecer, ou pelo menos permitir, a emergência da complexidade.

Nossa presença no universo não seria então um acidente contingente, mas uma consequência inscrita na própria impossibilidade do nada e do frio absoluto.

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