Devido a um fenômeno de ressonância orbital chamado "travamento de maré," a Lua sempre mostra a mesma face para a Terra. Durante milênios, o hemisfério não visível, conhecido como "lado oculto," permaneceu inacessível, alimentando inúmeras especulações. Foi somente com o advento da era espacial que esse véu começou a ser levantado. A sonda soviética Luna 3 capturou as primeiras imagens turvas em 1959, revelando um mundo radicalmente diferente: desprovido dos vastos "mares" basálticos (maria) que caracterizam o lado visível, mas extraordinariamente craterado e marcado por uma bacia de impacto gigante.
A diferença marcante entre os dois hemisférios lunares é um dos grandes mistérios da selenologia. O lado visível é pontilhado de maria, formados por antigas correntes de lava que preencheram grandes bacias de impacto. O lado oculto, por outro lado, tem muito poucos. Sua crosta, cerca de 50 km mais espessa do que a do lado visível, provavelmente limitou as erupções de magma após grandes impactos. Essa assimetria crustal é concretamente exemplificada pela formação da bacia Polo Sul-Aitken (SPA), um impacto gigante que remodelou localmente a crosta e influenciou a distribuição térmica da Lua. Esta bacia oferece uma janela única para a história geológica da Lua.
Dominando a topografia do lado oculto, a bacia Polo Sul-Aitken (SPA) é a maior estrutura de impacto conhecida no sistema solar. Com um diâmetro de cerca de 2.500 km e uma profundidade de até 13 km, ela se estende do Polo Sul quase até a cratera Aitken. Seu estudo é crucial porque escavou materiais do manto lunar, oferecendo uma janela única para a composição interna e a história da Lua. A missão chinesa Chang'e 4, que pousou lá em 2019, confirmou a presença de minerais olivina e piroxênio, típicos do manto superior, validando os modelos de formação planetária.
O lado oculto possui uma vantagem única para a astronomia observacional: está protegido das interferências de rádio geradas pela atividade humana na Terra. É o único lugar no sistema solar interno onde as ondas de rádio abaixo de 10-30 MHz, bloqueadas pela ionosfera terrestre, podem ser observadas. Essas baixas frequências poderiam permitir o estudo da idade escura do universo, logo após o Big Bang e antes da formação das primeiras estrelas. Projetos, como o radiotelescópio colocado pela missão Chang'e 4, já estão explorando esse potencial. Alimentar tais instrumentos durante a longa noite lunar (14 dias terrestres) representa um desafio técnico, potencialmente superado por sistemas HVDC ou pequenos reatores nucleares.
A exploração do lado oculto exigiu soluções técnicas engenhosas, especialmente para contornar a impossibilidade de comunicação direta com a Terra. As missões recentes dependem de satélites de retransmissão, como o Queqiao para o programa chinês Chang'e. O sucesso da Chang'e 4 e de seu rover Yutu-2, operacional há anos, marca um marco histórico. Agências espaciais internacionais agora planejam novas missões robóticas e humanas, direcionadas especificamente ao Polo Sul e à bacia SPA para coletar amostras e possivelmente estabelecer bases permanentes, protegidas da radiação e beneficiando-se de reservas de gelo de água.
Característica | Lado visível | Lado oculto | Comentário |
---|---|---|---|
Espessura da crosta | ~30-50 km | ~80-100 km | Explica a ausência de maria e a assimetria térmica |
Presença de Maria | Abundantes (~31% da superfície) | Muito raros (~1-2% da superfície) | Reflete a história vulcânica diferenciada |
Densidade de crateras | Média a baixa | Extremamente alta | Superfície mais antiga, arquivo de impactos primitivos |
Bacia de impacto principal | Várias (ex: Imbrium) | Bacia Polo Sul-Aitken (a maior do sistema solar) | Janela para o manto lunar e processos de impacto gigante |
Ambiente de rádio | Ruído de fundo terrestre significativo | Zona de "silêncio de rádio" | Local ideal para radioastronomia de baixa frequência |
Fonte: Dados compilados das missões Lunar Reconnaissance Orbiter (NASA), GRAIL (NASA) e Chang'e (CNSA). Referência: NASA - LRO, CLEP - China Lunar Exploration Program.
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