O escurecimento global encontra uma explicação cada vez mais evidente na própria física do aquecimento global. Uma atmosfera mais quente tem maior capacidade de reter vapor d'água. Segundo a relação de Clausius-Clapeyron, para cada grau de aquecimento, o ar pode reter cerca de 7% mais umidade. Esse vapor d'água, ao subir e condensar, alimenta uma cobertura de nuvens mais densa e persistente.
Esse aumento da nebulosidade não está isento de consequências para o clima. As nuvens desempenham um duplo papel: refletem parte da radiação solar de volta ao espaço (efeito guarda-sol), mas também retêm a radiação infravermelha emitida pela Terra (efeito estufa). O resultado líquido dessa retroalimentação das nuvens é um dos maiores desafios da climatologia moderna. Observações recentes de satélites sugerem que o efeito de resfriamento domina em algumas regiões, enquanto o efeito de aquecimento prevalece em outras.
As consequências desse escurecimento de origem térmica já são visíveis. A invasão das nuvens é a assinatura visível da mudança climática em ação. Ela nos lembra que cada décimo de grau adicional se traduz em mais umidade no ar, mais nuvens e um pouco menos de luz solar direta. Observa-se uma tendência de aumento da cobertura de nuvens nas regiões tropicais e temperadas, com invernos mais cinzentos e verões onde o sol mal consegue aparecer.
| Zona climática | Aumento do vapor d'água (1990-2025) | Evolução da cobertura de nuvens | Impacto na insolação |
|---|---|---|---|
| Regiões tropicais (Amazônia, Bacia do Congo, Indonésia) | +6% a +8% | Aumento marcado de nuvens convectivas | Redução de 4% a 6% |
| Zonas temperadas (Europa, América do Norte) | +4% a +6% | Aumento de stratus e estratocúmulos | Redução de 2% a 4% |
| Regiões boreais (Sibéria, Canadá, Escandinávia) | +5% a +7% | Nuvens baixas mais frequentes no verão | Redução sazonal marcada |
| América do Sul temperada (Argentina, Chile, Sul do Brasil) | +4% a +6% | Aumento da nebulosidade frontal | Redução de 3% a 5% |
| África Austral (Namíbia, Botsuana, África do Sul) | +3% a +5% | Nuvens marítimas mais invasivas | Redução de 2% a 4% |
| Austrália e Nova Zelândia | +4% a +6% | Aumento de nuvens costeiras e ciclônicas | Redução de 3% a 5% |
| Região antártica e oceano Austral | +5% a +7% | Nuvens baixas mais frequentes, derretimento acelerado | Redução moderada, mas efeito albedo complexo |
Fonte: NOAA Climate.gov e IPCC, AR6 WG1, Capítulo 7 (2023), NOAA CPC.
Essa pergunta opõe duas tendências contraditórias decorrentes do aquecimento global.
Por um lado, o aumento do vapor d'água (7% a mais por grau) alimenta uma cobertura de nuvens mais densa, nos empurrando para um mundo mais escuro e úmido. Assim, o cenário de escurecimento persistente prevê um aumento significativo de nuvens altas nos trópicos e stratus em zonas temperadas, com uma redução de 5% a 10% na insolação até 2100.
Por outro lado, a redução dos aerossóis poluentes torna as nuvens menos reflexivas e permite que mais luz passe, acelerando o aquecimento global. Na Europa e na América do Norte, onde as normas antipoluição reduziram significativamente as emissões desde os anos 90, a radiação solar aumentou 1% a 2% por década desde o início do século XXI. Assim, o cenário de clareamento abrupto, após o desaparecimento rápido dos aerossóis, poderia revelar um aquecimento até então mascarado, desencadeando uma "debâcle radiativa": um céu recuperando sua luminosidade azulada enquanto o planeta sofre uma aceleração térmica sem precedentes.
Uma certeza emerge: o mundo de amanhã será diferente do de ontem. Seja rumando para um mundo mais escuro ou mais luminoso, essas mudanças terão consequências significativas para os ecossistemas, a agricultura, a produção de energia e o bem-estar humano.