
Marte, apelidado de planeta vermelho, deve a sua cor emblemática ao óxido de ferro, comumente chamado ferrugem, que cobre a sua superfície e dunas de poeira. Este mundo, ao mesmo tempo próximo e misterioso, atrai a atenção de cientistas e sonhadores desde que a humanidade olha para o céu. Mas além da sua tonalidade característica, é o seu potencial para ter abrigado vida que alimenta as paixões.
As semelhanças passadas com a Terra — presença de água líquida, atividade vulcânica, ciclos sazonais — fazem dele um laboratório natural único para entender a evolução dos planetas e o surgimento da vida. Cada nova imagem, cada dado enviado pelos rovers como Perseverance ou Curiosity é escrutinado, pois pode conter a chave para uma das maiores questões da humanidade: estamos sozinhos no universo?
Sabia que Marte é o planeta mais próximo da Terra depois de Vênus, mas aquele cujo ambiente é o mais acessível? A apenas 56 milhões de quilômetros durante suas oposições mais favoráveis (um evento que ocorre aproximadamente a cada 26 meses), é um candidato ideal para a exploração espacial robótica e, por que não, uma futura colonização humana.
Essa proximidade relativa permite enviar missões em cerca de seis a oito meses, uma viagem longa, mas viável com as tecnologias atuais. É essa distância, combinada com um dia de duração semelhante ao nosso e a presença de recursos como gelo de água, que faz de Marte a opção mais realista para uma expansão da humanidade além da Terra.
A atmosfera de Marte é 100 vezes menos densa que a da Terra, com uma pressão no solo equivalente à encontrada a cerca de 35 km de altitude na nossa atmosfera. Essa fina camada gasosa, composta por 95% de dióxido de carbono (com traços de nitrogênio e argônio), torna a vida como a conhecemos impossível sem proteção.
Ela é incapaz de reter o calor (efeito estufa negligenciável), o que explica as variações extremas de temperatura, e não oferece nenhuma proteção contra as radiações ultravioleta e cósmicas. No entanto, contém pistas preciosas: a presença de metano, detectado em alguns lugares, cuja origem pode ser geológica ou... biológica. O estudo dessa atmosfera, especialmente sua fuga contínua para o espaço sob o efeito do vento solar (estudada pela missão MAVEN), é crucial para entender como Marte passou de um mundo potencialmente habitável para o deserto frio e árido que vemos hoje.
Em Marte, um dia (chamado "sol") dura 24 horas e 39 minutos, apenas um pouco mais que aqui. Esse ritmo circadiano próximo ao nosso é uma vantagem considerável para a adaptação humana. Um ano marciano, por outro lado, equivale a 687 dias terrestres, porque sua órbita está mais distante do Sol.
Graças à inclinação do seu eixo (cerca de 25 graus, muito próximo dos 23,4 graus da Terra), Marte também tem estações marcadas, assim como o nosso planeta! No entanto, devido à órbita mais elíptica de Marte, essas estações têm duração desigual: o inverno boreal é mais curto e mais ameno que o inverno austral. Essas variações climáticas sazonais provocam fenômenos espetaculares como a formação de nuvens de gelo, tempestades de areia gigantes e a sublimação das calotas polares, que recuam e avançam ao longo do ano marciano.
Fobos ("Medo") e Deimos ("Terror"), as duas pequenas luas de Marte, são bastante modestas em comparação com a nossa Lua. De aparência irregular, elas se assemelham a asteroides escuros e craterados. A teoria dominante é que se tratam de antigos asteroides do cinturão principal, capturados pela gravidade marciana há bilhões de anos. Mas sua origem exata permanece um assunto de estudo fascinante.
Fobos, a maior e mais próxima, orbita Marte em apenas 7,6 horas, mais rápido que a rotação do próprio planeta! Vista da superfície, nasce a oeste e se põe a leste. Acima de tudo, Fobos está condenada: as forças de maré a aproximam inexoravelmente de Marte. Em algumas dezenas de milhões de anos, ela acabará se chocando contra a superfície ou (mais provavelmente) se desintegrando para formar um anel de detritos ao redor do planeta vermelho.
Olympus Mons: o maior vulcão (e a montanha mais alta conhecida) do sistema solar, com 22 quilômetros de altitude, quase três vezes a altura do Everest. Sua caldeira no topo, com 80 km de largura, testemunha as imensas câmaras de magma que o alimentavam. Seu tamanho gigantesco é explicado pela ausência de tectônica de placas em Marte: o ponto quente permaneceu fixo, acumulando lava por centenas de milhões de anos.
Valles Marineris: um cânion colossal de 4.000 quilômetros de comprimento (a largura dos Estados Unidos), com até 200 km de largura e 7 quilômetros de profundidade. Esse sistema de falhas, provavelmente formado pelo soerguimento da região vulcânica de Tharsis, empalidece em comparação com o Grand Canyon terrestre. Suas paredes íngremes revelam quilômetros de história geológica marciana, e seus vales secundários podem ter sido esculpidos pela água e pelo gelo.
As missões espaciais, desde orbitadores como Mars Reconnaissance Orbiter até rovers como Curiosity e Perseverance, revelaram provas indubitáveis e abundantes: Marte abrigou água líquida por longos períodos no passado. Hoje, observamos leitos de rios secos, deltas sedimentares (como o da cratera Jezero explorado pela Perseverance) e minerais hidratados (argilas, sulfatos) que só podem se formar na presença de água.
Há mais de 3,5 bilhões de anos, Marte provavelmente possuía um oceano boreal cobrindo grande parte de seu hemisfério norte. Essa água, que moldou as paisagens, torna a hipótese de uma vida passada (microbiana) bastante plausível. Hoje, a água subsiste principalmente na forma de gelo nas calotas polares e no subsolo, e potencialmente como salmouras líquidas muito salgadas em certas profundidades. A busca atual dos rovers é justamente encontrar assinaturas de vida antiga nesses ambientes outrora propícios.
Sabia disso? Olympus Mons é um vulcão-escudo, formado por fluxos de lava fluida ao longo de milhões de anos, o que lhe deu essa forma larga e pouco íngreme. Seu cume domina um planalto de 25 quilômetros de altura, oferecendo um espetáculo único em nosso sistema solar. Suas encostas, de uma suavidade enganosa, escondem falésias e túneis de lava. Saiba mais sobre os vulcões marcianos.
A história da exploração de Marte é marcada por sucessos e fracassos. Desde os primeiros sobrevoos bem-sucedidos da Mariner 4 em 1965, a humanidade enviou dezenas de missões ao planeta vermelho. A década de 1970 marcou uma virada com os módulos de pouso Viking, os primeiros a buscar diretamente sinais de vida no solo marciano.
Hoje, a exploração é conduzida por uma frota de naves sofisticadas: orbitadores como Mars Express (ESA) que mapeiam a superfície em alta resolução, e especialmente rovers como o chinês Zhurong ou o americano Perseverance. Este último, acompanhado do pequeno helicóptero Ingenuity (primeiro voo motorizado em outro planeta), tem a missão de coletar amostras de rochas.
O objetivo final, ambicioso, é trazê-las de volta à Terra por meio da missão Mars Sample Return, um programa conjunto NASA-ESA que permitiria analisar esses materiais com instrumentos muito pesados e complexos para serem enviados a Marte. Sem dúvida, este é o próximo grande passo em nossa compreensão do planeta e seu potencial biológico passado.
N.B.: A definição oficial de um planeta (desde 2006) exige que ele orbite o Sol, tenha forma esférica graças à sua própria gravidade e tenha "limpado" sua órbita. Marte, é claro, atende a esses critérios brilhantemente, dominando sua região espacial sem compartilhar há bilhões de anos.